terça-feira, 22 de maio de 2018

Não procures o verso grandioso





Não procures o verso grandioso
aquele que nos tolhe os passos,
a nós, que não somos senão animais,

embriagados de luz

na orla do sonho

Não queiras o saber que pesa
aquele que nos aprisiona o olhar,
a nós, que não procuramos senão
a epiderme do instante e a voz
do vento, em asa veloz.

Não queiras ser senão este animal
de seiva e olhos de fogo que nada sossega
olha como a sua pele repete
o enigma das estrelas
e o calor das savanas,
olha como o seu coração conhece
essa música que arde na noite antiga.

Não procures senão a sombra a ausência
O início do círculo e que nos salva
A nós, que não somos senão animais,



embriagados de luz

na orla do sonho



Maria João Cantinho
in, Do Ínfimo





Não aconteceu o que eu queria?





Então vou seguir feliz pelo novo caminho que a vida me impôs.

Na verdade esse novo plano não é uma imposição, porque estarei de acordo com a vida.
Por ser assim, o que ela quiser, eu também quero.

Sabedoria é fluir com a vida, é a aceitação plena de tudo.
É abrir o coração para o facto de que todos os caminhos existem para nos ensinar algo, para transformar algo em nós, para despertarmos e vencermos nossa mente condicionada. E assim vamos aprendendo a cocriar com flexibilidade, a interagir com a vida criativamente.
Sabedoria é praticar os conhecimentos espirituais, é realmente se entregar à impermanência e à transitoriedade.

Uma flor não deixa de ser bela porque ela vai murchar e nem deixamos de admirar sua beleza por isso.


Marcelo Dalla




sábado, 19 de maio de 2018

Are You There?






Each lover has a theory of his own 
About the difference between the ache
Of being with his love, and being alone:

Why what, when dreaming, is dear flesh and bone 
That really stirs the senses, when awake, 
Appears a simulacrum of his own.

Narcissus disbelieves in the unknown; 
He cannot join his image in the lake
So long he assumes he is alone.

The child, the waterfall, the fire, the stone,
Are always up to mischief, though, and take
The universe for granted as their own.

The elderly, like Proust, are always prone
To think of love as a subjective fake;
The more they love, the more they feel alone.

Whatever view we hold, it must be shown
Why every lover has a wish to make
Some other kind of otherwise his own:
Perhaps, in fact, we never are alone. 


W. H. Auden





VICIADOS EM C.C.C.




VICIADOS EM C.C.C. 
CRÍTICA, CULPA, CONFLITO

A necessidade de criticar, culpar e estar em permanente conflito 
pode tornar-se viciante e à semelhança de qualquer outra droga, 
provocar dependência.



Pessoas que o criticam e o fazem sentir culpado repetidamente, que sentem prazer em discutir, fá-lo lembrar alguma situação ou alguém em particular?

Todos guardamos na memória esses momentos e essas pessoas porque teimam em permanecer na nossa mente como sinais Vermelhos, embora já não estejam nas nossas vidas, ou ainda estejam por uma razão, mil razões, ou nenhuma razão em concreto.

E como o fazem sentir as pessoas aditivas em C.C.C.?

Aquelas que lhe apontam o dedo, as falhas, os defeitos, uma vez após outra?

Que o fazem assumir os erros que sabe que não cometeu, a responsabilidade que não é sua, e que descobrem os motivos mais inacreditáveis para discutir consigo, para lhe extrair a sua energia vital, a sua alegria, a sua paz… fazendo-o sentir passar por tempestades cíclicas não são previsíveis pelo melhor meteorologista do mundo?

Uma das emoções que melhor define quem o vive, é confusão!

As pessoas viciadas em C.C.C. têm a capacidade mágica de gerar desorientação, confusão e aflição intensas nos outros. Sabe porquê?

Porque ninguém vem ao mundo com um Kit de sobrevivência contra elas. Fizeram-nos acreditar que as pessoas são boas e que podemos confiar nelas. Quando alguém nos faz mal, tendemos a pensar que nós é que lhe fizemos mal, nós é que errámos ou temos algo de errado, e isso pode ser verdade, como pode não ser. E quando é mentira, algumas pessoas podem fazê-lo acreditar que é verdade e provocar em si uma indescritível sensação de incapacidade, vergonha e pequenez, levando-o a perguntar-se: Afinal quem sou e quanto valho?

E aí está o grande Perigo: Duvidar de quem é, das suas capacidades e do seu valor.

Muito para além da irritação, da ansiedade, de poderem esgotar a sua paciência, de o desgastarem emocional e fisicamente, a ponto de ter a impressão de estar a ficar doido, muitas dessas pessoas têm o Poder de o fazer questionar os seus juízos de valor, a sua perceção, as suas convicções, os seus princípios e valores, a sua dignidade e integridade, aquilo que considera ser bom e o melhor para si, diminuindo a sua autoestima, a sua autoconfiança, podendo fazer com que se sinta muito inseguro.

E sabe uma coisa? Ninguém está a Salvo delas! Não existe formação, dinheiro, poder ou sucesso que sejam suficientemente dissuasores. A única coisa que o pode proteger é saber identifica-las a tempo, fugir, e se não for possível, saber relacionar-se com elas.

Para além de detetives das falhas e da culpa alheias, muitas apresentam traços vincados de egoísmo, egocentrismo, demonstram desinteresse e indiferença constantes quando às necessidades e interesses do outro.

Um outro traço que os caracteriza é a sua permanente superioridade, arrogância, autoritarismo e insatisfação, independentemente da capacidade de dar, agradar e satisfazer de quem está por perto.

Este é outro dos grandes Perigos! Acreditar que a satisfação e felicidade delas, dependem de si. Acreditar que por dar mais, amar mais, estar mais, ajudar mais, perdoar mais, trabalhar mais, dedicar-se mais, abrir mão de si, satisfazer todos os seus caprichos e devaneios, o vão respeitar, admirar e valorizar mais!

Esqueça! Não resulta! Sabe porquê?

Porque os aditivos em C.C.C. não o conseguem ver, nem ver o que faz por eles. Para eles isso é obrigação sua, não Amor, Amizade, afeto, interesse, mérito… porque, senão a maioria, muitos não sabem o que isso significa.

Sabe por quem se sentem mais atraídos? Exatamente pelas pessoas que os colocam como prioridade nas suas vidas. Pessoas generosas, bondosas, que perdoam facilmente, que deixam tudo para ajudar os outros, que apresentam dificuldade em colocar limites, definir regras e dizer “não”. E ainda, aquelas que idealizam a vida e as relações e que acreditam que a sua transformação depende tão só delas próprias.

Esqueça! As Pessoas Aditivas em C.C.C. vão continuar a sê-lo independentemente do que possa fazer.

Deixar de Ser, calar-se, anular-se, fazer tudo o que querem, assumir ser quem eles dizem que é, dar mais, virar-se do avesso… pouco ou nada vai resultar.

Sabe Porquê? Porque elas precisam de criticar, de culpar e de discutir, como precisam de comer e de dormir.

Criticam para se sentirem superiores, culpam para não sentirem vergonha, discutem para se sentirem poderosos… independentemente do que faça! Precisam fazê-lo para sentirem a confiança que não têm e sentir que existem.

Aquilo que sente, o que pensa, o que quer… é-lhes indiferente e passa-lhes ao lado!

Sim, são um perigo porque se coloca a sua vida nas suas mãos, corre o risco de se vir a identificar com elas, de ficar dependente e de se esquecer de quem um dia foi. E acredite, nem elas nem ninguém o vai considerar um herói por entregar a sua vida nas mãos de um outro alguém narcisista que precisa deitar o seu lixo emocional sobre si.

Quem decide quem é e qual é o seu valor, é você não os outros!

Não hipoteque a sua vida nas mãos de um narcisista que finge importar-se consigo, alimenta as suas fantasias quando lhe dá jeito e o faz sentir pequeno para se sentir grande!

Por detrás do vício C.C.C. alguém profundamente carente de autoconfiança e inseguro.

Mas você não é responsável pelas suas feridas quaisquer que elas sejam, não tem de ser “bode expiatório” ou “balão de oxigénio” da dor e sofrimento dos outros, nem carregar às costas a sua infelicidade, especialmente quando o criticam e culpam constantemente.

Se estas temáticas são do seu interesse, no meu Novo Livro “Perigo! Duas Caras” encontrará o seu desenvolvimento e ficará a saber como os identificar e defender-se.


MARGARIDA VIEITEZ











quarta-feira, 16 de maio de 2018

Assombro





Sentas-te na sombra e sabes
do modo como apenas o crepúsculo
salva a tua urgência, a tua sede
de chuva e do avesso da noite
o assombro
o desvario de palavras,
essa lâmina que rasga o real
uma garra de nada, uma pedra
no teu caminho.

E procuras o escopro,
o arado alquímico, o compasso,
o fogo e o atanor
que há-de medir-te
o ritmo matemático
e a matéria transfigurada do poema,
esse golpe certeiro e lírico,
asa de sonho,
magma, víscera, palavra
suor, sangue, alma
língua, jogo, imagem
trevas esperando a alba
e a clara luz, esse estremecimento
mínimo
oculto nos detalhes.

Nascente, luminescente,
é um abismo em forma de rosa.



Maria João Cantinho
in, Do Ínfimo





Surpreendente, seria...





Surpreendente, surpreendente, seria não haver ambulâncias, violência, golpes (de estado) e imprevistos, choques, rupturas, abandonos (liberdade!) e mudanças

(se fores de férias já não é mau, e se não fores, não sei se aguentas sem mudar pelo menos alguma coisa e com urgência)

Surpreendente, surpreendente,

Seria

Não estar o facebook hoje (hoje também) inundado de manifestos e indignação, assim como o mundo real,

cheio de tensão

e o Facebook em brasa (é o Marte quadratura a Urano, nasci com isso e em recepção mútua, sei bem o que é a revolta, a violência, e a impaciência - também sei o que acontece quando não temos causas suficientemente luminosas pelas quais lutar)

o Facebook - que é o livro dos rostos enrubescidos raivosos zangados indignados apoplécticos por estes dias, e enquanto não há nada de realmente construtivo e útil para fazer ao tempo, à energia, à vitalidade - a não ser reclamar como um revolucionário de café, protestar como um cobarde, alvitrar como um velho dos marretas

(não pela política, pelas injustiças, pelas infracções e atropelos dos direitos humanos, pelas invasões injustificáveis a não ser pelos motivos do costume, pelas manigâncias políticas e económicas por detrás dos 'acordos' e das guerras; não pelo peculato, não pelos abusos de poder, não pelos lobbies farmacêuticos, leiteiros, saleiros e açúcareiros, carnificeiros e salmoneiros mas

pelo futebol.

Não é o futebol,

É o desportivismo a dignidade o respeito os direitos os valores os dirigentes a justiça a ética a sociedade

Pois é, pois é

É quando nos cai o lixo no quintal

Porque enquanto é o terreno do outro a arder, que sa fod*

Depois reclamo até contratarem um kamov, kamon,

Mas só quando me tocar a mim.

Casa roubada, trancas à porta.

Surpreendente, surpreendente,

Seria estarmos indignados com a corrupção, a guerra, a destruição do planeta, a ameaça da obesidade, o drama do ensino, a falência do sistema económico e social, as trevas espirituais em que vivemos, os vícios, as doenças e a depressão que dominam a sociedade ocidental, o tédio, e o facto de andar quase toda a gente presa por arames, a um passo de se passarem perante a próxima desilusão, choque ou contrariedade - prontos a explodir e a matar, prontos a implodir, a desistir e a desanimar perante o fluxo próprio da vida e as consequências inevitáveis dos seus próprios destinos, karmas, e escolhas,

Surpreendente, surpreendente,

Seria não haver ambulâncias, choques e indignação por estes dias

Surpreendente, surpreendente,

Seria não ser, uma vez mais, a euro visão ou o futebol o pretexto.

Fátima, Fado e Futebol:

e um gajo tem de se perguntar,

Onde anda por estes dias a nossa senhora de Fátima,

Será que a vamos ver no Jamor?





Este vídeo diz muito sobre a natureza do nosso comodismo indiferente e autista, e o que é necessário fazer para chamar a atenção e motivar a nossa indignação.

O universo já aprendeu como chamar e prender a nossa atenção.

Agora só nos falta a nós aprender a dar atenção ao universo.

Fuck the poor,

É muito mais eficaz *

O Universo sabe bem como nos chamar a atenção, porque sabe onde 'nos' toca *



Nuno Michaels






terça-feira, 15 de maio de 2018

Velho Colono


Oscar Lopez




Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.

Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rido tontamente.

Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali, está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele, a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frestas gargalhadas, tintas de outono
próximo na folhagem e o tempo.

O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.


RUI KNOPFLI
in, Reino Submarino






Porque a Igreja inventou o “Inferno”


Fabian Adrian



“Eu não acho que o inferno existe”, 
disse o reverendo John Shelby Spong. 

“Eu acredito em vida após a morte, 
mas não acho que tenha algo a ver com 
 recompensa e punição.”


Spong é um bispo americano aposentado da Igreja Episcopal e de 1979 a 2000 foi o bispo de Newark em Nova Jersey, EUA.

Ele compartilhou sua visão de que o inferno foi inventado pela Igreja para controlar as pessoas e seus comentários se tornaram virais, alcançando dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

A religião inventa ideias e conceitos como qualquer empreendimento humano criativo. Algumas dessas ideias ajudaram muitas pessoas a encontrar significado e satisfação em suas vidas. No entanto, muitos dos conceitos inventados pela religião têm como objetivo levar as pessoas a se conformarem a um sistema de comportamentos que garantam uma recompensa intangível na vida após a morte.

“A religião está sempre no controle dos negócios e isso é algo que as pessoas realmente não entendem. Ela controla o negócio da produção de culpa e se você tem o céu como um lugar onde você é recompensado por sua bondade e o inferno como um lugar onde você é punido por seu mal, então você tem o controle da população. ” 
— diz Spong

O efeito de ameaçar punir as pessoas por maus comportamentos é sufocar sua curiosidade natural.

Ele continua:

“Então eles criam este lugar de fogo que tem assustado muitas pessoas ao longo da história cristã, e faz parte da tática de controle.”

Spong está sugerindo que o Inferno é um mito e requer que as pessoas temam a existência do Inferno para ajudar a Igreja a continuar sobrevivendo.

Muitas pessoas recorrem aos ensinamentos religiosos e espirituais para orientação em um mundo caótico, mas o impacto da religião, de acordo com Spong, resulta em pessoas sendo menos responsáveis ​​por suas ações.
E ele diz mais:

“A Igreja não gosta de pessoas que crescem porque você não pode controlar os adultos. É por isso que falamos sobre nascer de novo. Quando você é nascido de novo, você ainda é uma criança. As pessoas não precisam nascer de novo, elas precisam crescer, aceitar a responsabilidade por si mesmas no mundo ”.

É impossível verificar para aonde “almas” ou “espíritos” humanos vão depois da morte, mas as religiões criam mitos sobre lugares como o Céu e o Inferno. 
Porque será que eles fazem isto?

A resposta é simples, segundo Spong.
Manter esses mitos mantém as pessoas em um estado de medo, onde elas se voltam para a Igreja como seu salvador.

No entanto, Spong levanta uma questão pertinente:

“Toda igreja que conheço afirma que somos a verdadeira Igreja, eles têm alguma autoridade suprema. Temos o papa infalível, temos a Bíblia inerrante. A ideia de que a verdade de Deus pode estar ligada a qualquer sistema humano, qualquer credo humano, por qualquer livro humano é quase além da imaginação para mim."

Spong encerra a entrevista com um poderoso apelo para que seus espectadores vejam a religião de uma maneira diferente:

“Deus não é cristão! Deus não é judeu, muçulmano, hindu ou budista. Esses são sistemas humanos que os seres humanos criaram para tentar nos ajudar a entrar no mistério de Deus ”.



in, Pensar Contemporâneo




sábado, 12 de maio de 2018

A Carta


Anna Larsson





A velha dobrou as pernas como se dobrasse os séculos. Ela sofria doença do chão, mais e de mais se deixando nos caídos. Amparava-se em poeiras, seria para se acostumar à cova, na subfície do mundo?

– Me leia a carta. Me entregava o papel marrotado, dobrado em mil sujidades. Era a Carta de seu filho, Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero. A carta, ele a enviara fazia anos muito coçados. Sempre era a mesma, já eu lhe conhecia de memória, vírgula a vírgula.

– Outra vez, mamã Cacilda?
– Sim, maistravez.

Sentei o papel sob os olhos, fingi acarinhar o desenho das letras. Quase nem se viam, suadas que estavam. Dormiam sob o lenço de Cacilda, desde que chegara a guerra. Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração. Era o dito da velha.

Agora, passados os tempos, aquele papel era a única prova do seu Ezequiel. Parecia que só pelo escrito, sempre mais desbotado, seu filho acedia à existencia. Nas primeiras vezes eu até me procedia à leitura, traduzindo a autêntica versão do pequeno soldado. Eram letras incertinhas, pareciam crianças saindo da formatura. Juntavam-se ali mais erros que palavras. O recheio nem era maior que o formato.

Porque naquela escrita não havia nem linha de ternura. O soldado aprendera a guerra desaprendendo o amor? Em Ezequiel, morrera o filho para nascer o tropeiro? Nas primeiras leituras, meu coração muito se apertava em inventadas dedicatórias aquela mãe. Enquanto lia, eu espreitava o rosto da idosa senhora, tentando escutar uma ruga de tristeza. Nada. A velha se imovia, como se tivesse saudade da morte. Seus olhos não mencionavam nenhuma dor. Eu tentava um alivio, desculpar o menino que não sobrevivera à farda. Nem se entristenha, mamã Cacilda. Também, maneira como carregaram esse menino para a tropa! Sem camisa, sem mala, sem notícia. Atirado para os fundos do camião como se faz às encomendas sem endereço.

– Entenda, mamã Cacilda.

Mas ela já dormia, deitada em antiquíssima sombra. Ou mentia que Dormia, debruçada na varanda da alma? Fingia, a velha. Como o rio, num açude, se disfarça de lagoa. Depois, ela regressava às pálpebras, me apressava.

– Continua. Por que paraste?

Já não restava nada que ler. Era só o gorduroso gatafunho, despedida Sem nenhum beijo. Pode a carta de um saudoso filho terminar assim «unidade, trabalho, vigilância»? Mas a velha insistia, cismalhava. Eu que lesse, toda a gente sabe, as letras igualam as estrelas mesmo poucas são infinitas. Eu lhe fosse paciente, pobre mãe, sem nenhuma escola. Foi então que passei a alongar aquela tinta, amolecendo as reais palavras. Inventava. Em cada leitura, uma nova carta surgia da velha missiva.

E o Ezequiel, em minha imagináutica, ganhava os infindos modos de ser filho, homem com méritos para permanecer menino. Cacilda escutava num embalo, houvessem em minha voz ondas de um sepultado mar. Ela embarcava de visita a seu filho, tudo se passando na bondade de uma mentira. Diz-se na própria doideira dos vamos loucurando. Até, um dia, me trouxeram notícia. Ezequiel perdera, para sempre, a existencia. Ele se desfechara em incógnitos matos, vitima dos bandos. A mãe nem suspeitava. Perguntei desconhecia-se o paradeiro dela. Ficasse eu atribuido de lhe entregar o escuro anúncio. Esperei. Nesse fim de tardinha, porém, mamã Cacilda não compareceu em minha casa. Assustei adivinhara ela o destino do Ezequiel? Quem conhece os poderes de uma mãe em exercicio de saudade? Decidi ir ao seu lugar. Parti ainda restavam manchas do poente. Cacilda cozinhava uns míseros grãos, ementa de passarinho.

– Senta, meu filho, fica servido, não custa dividir pobrezas.

Fui ficando, me compondo de coragem. Como podia eu deflagrar aquele luto? Comemos. Melhor fingimos comer. Faz conta é uma refeição, meu filho. Faz conta. Modo que eu vivo, fazendo de conta.

– E agora, diz porque vieste nesta minha casa?
Olhei o chão, o mundo escapava pelo fundo. Ela venceu o silêncio.
Me vens ler o meu filho?

Acenei que sim. Aceitei o velho papel mas demorei a começar. Eu queria acertar os meus tons, evitando o emergir de alguma tremura. Finalmente, atravessei a escrita, ao avesso da verdade. Trouxe as novas do filho, seus consecutivos heroísmos. Ele, o mais bravo, mais bondoso, mais único. Como sempre, a mãe escutou em qualificado silêncio. Às vezes, no colorir de um parágrafo, ela sorria sempre igual, esse meu filho. Eu me parabendizia, cumprida a missão do fingimento. Me despedi, quase em alívio. Foi então, em derradeiro relance, que eu vi a velha mãe lançava a carta sobre a fogueira. Ao meu virar, ela emendou o gesto. O papel demorou um instante a ser mastigado pelo fogo. Nesse brevíssimo segundo, eu anotei a lágrima pingando sobre a esteira. Ela fingiu tirar um fumo do rosto, fez conta que metia a carta sob o lenço. Me voltei a despedir, fazendo de conta que aquele adeus era igual aos todos que já lhe concedera.



Mia Couto






Carpe Diem


Eric Lafforgue





Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…



Walt Whitman