sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Não foi porque não tinha que ser





Não foi porque não tinha que ser.
Quantas vezes eu já ouvi e repeti isso?
Mas será que não era mesmo?
Ou eu fiz não ser?
Não sei.

Só sei que o tempo não volta, e nesse caso específico, um dia tivemos outra oportunidade mas assim como as águas nunca voltam iguais, a oportunidade também não se mostrou a mesma.

Aí lembro de uma citação do filme “2046” onde o amor tem a ver com o tempo:
Não adianta encontrar a pessoa certa demasiado tarde ou cedo demais. 

Então concluo que não foi a oportunidade que já não era a mesma, era o tempo que já era outro. 

Não estou com saudades não, nem arrependida.
E confesso, faz tanto tempo que não sei nem contar os anos desde aquele dia.

É que hoje vim de carona.
E ouvimos um único cd o percurso inteiro.
O mesmo cd que num fim de semana qualquer do passado tocou sem parar.
Músicas que meses depois, num pedido de “perdão”, ganhei num dvd e num cartão que ainda não tive coragem de jogar fora.
Nunca assisti esse DVD. Não queria nada que lembrasse aqueles dias.

Mas a lembrança não obedece a gente. 
Nem os outros sabem dos segredos que guardamos, ou melhor, enterramos dentro da gente. 
Só sei que aquelas músicas tocaram hoje sem parar.
Uma seguida da outra.
E eu ainda sabia todas as letras.
E como um filme, pela janela eu via uma estrada vazia, chuva no pará-brisa, árvores e uma mão na minha coxa.


Clarice Lispector




Sexo, consolo da miséria!





A prostituta é rainha, seu trono
é uma ruína, sua terra, um pedaço
de campo emporcalhado, seu cetro,
uma bolsinha brilhosa e vermelha;
e late na noite, imunda e feroz,
como uma mãe antiga; e defende
suas posses e sua existência.
Os gigolôs, em torno, aos bandos,
inchados e abatidos, de bigodes
brindisinos ou eslavos, são
chefetes, comandantes: combinam
no escuro seus negócios de cem liras,
acenando em silêncio, trocando
palavras de ordem: o mundo, excluído, cala
em torno deles, que dele se excluíram,
silenciosas carniças de rapina.

Mas nos refugos do mundo nasce
um novo mundo: nascem novas leis
onde não há mais lei, nas uma nova
honra onde a honra é só desonra…
Nascem potências e nobrezas,
ferozes, nos montes de cortiços,
nos locais mais remotos onde pensas
que a cidade termina, mas no entanto
recomeça, inimiga, recomeça
milhares de vezes, com suas pontes
e labirintos, canteiros e aterros,
por trás de borrascas de arranha-céus
que cobrem horizontes infindáveis.

Na facilidade do amor
o miserável se sente homem:
funda sua confiança na vida, até
desprezar quem leva outra vida.
Os filhos se arremessam na aventura
seguros de pertencerem a um mundo
que deles, de seu sexo, tem horror.
Sua piedade é serem impiedosos,
sua força está toda na leveza,
sua esperança, em não ter esperança.



Pier Paolo Pasolini
in, “A Religião do meu Tempo”






quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Beber Toda a Ternura





Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
( o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces.


Mia Couto
in, "Raiz de Orvalho"




As feridas do círculo familiar





Não podemos permitir 
que um passado familiar 
disfuncional e traumático 
afete o nosso presente e o nosso futuro.
 Devemos ser capazes de superá-lo 
e nos curarmos para sermos felizes.



As feridas geradas no círculo familiar causam traumas, carências profundas e vazios que nem sempre conseguimos reparar.

O impacto decorrente de um pai ausente, uma mãe tóxica, uma linguagem agressiva, gritos ou uma criação sem segurança e afeto trazem mais do que a clássica falta de autoestima ou os medos que é tão difícil superar.

Muitas vezes a dificuldade para resolver muitos destes impactos íntimos e privados está num cérebro que foi ferido muito cedo.

Não podemos nos esquecer de que o stress experimentado ao longo do tempo em idades jovens faz com que a arquitetura do nosso cérebro mude, e com que estruturas associadas às emoções sejam alteradas.

Tudo isso traz como consequência uma maior vulnerabilidade, um desamparo mais profundo que leva a um risco maior na hora de sofrermos de determinados transtornos emocionais.

A família é o nosso primeiro contato com o mundo social, e se este contexto não nutre as nossas necessidades essenciais, o impacto pode ser constante ao longo de nosso ciclo vital.




Vejamos a seguir, detalhadamente, por que é tão difícil superar estas feridas sofridas na época mais inicial de nossas vidas.

A cultura nos diz que a família é um pilar incondicional (embora, às vezes, erre).

O último cenário em que alguém pensa que vai ser ferido, traído, decepcionado ou até abandonado é, sem dúvida, no seio de sua família.
No entanto, isso ocorre com mais frequência do que imaginamos.

Estas figuras de referência que têm como obrigação dar-nos o melhor, oferecer confiança, ânimo, positividade, amor e segurança às vezes falham voluntária ou involuntariamente.

Para uma criança, um adolescente e até para um adulto, experimentar esta traição ou esta decepção no seio familiar supõe desenvolver um trauma para o qual nunca estamos preparados.

A traição ou a carência gerada na família é mais dolorosa do que a simples traição de um amigo ou companheiro de trabalho. É um atentado contra a nossa identidade e nossas raízes.




A ferida de uma família é herdada por gerações

Uma família é mais do que uma árvore genealógica, um mesmo código genético, que ter os mesmos sobrenomes:


  • As famílias compartilham histórias e legados emocionais. Muitas vezes estes passados traumáticos são herdados de geração em geração de muitas formas.
  • A epigenética nos lembra, por exemplo, que tudo que acontece em nosso ambiente mais próximo deixa um impacto em nossos genes.
  • Assim, fatores como o medo, o stress intenso ou os traumas podem ser herdados entre pais e filhos.
  • Isso faz com que, em alguns casos, sejamos mais ou menos suscetíveis a sofrer de depressão ou reagir com melhores ou piores ferramentas diante de situações adversas.


Ainda que estabeleçamos distância do nosso círculo familiar, as feridas seguem presentes.
A um dado momento, finalmente tomamos coragem: dizemos “chega” e cortamos este vínculo prejudicial para estabelecer uma distância da família disfuncional e traumática.

No entanto, o simples fato de decidirmos dizer adeus a quem nos fez mal não traz, por si só, a cura da ferida. É um princípio, mas não a solução definitiva.

Não é nada fácil deixar para trás uma história, dinâmicas, lembranças e vazios.

Muitas destas dimensões ficam presas à nossa personalidade, e inclusive no nosso modo de nos relacionarmos com os demais.

As pessoas com um passado traumático costumam ser mais desconfiadas, têm mais dificuldade em manter relações sólidas.

Quem foi ferido precisa, além disso, se sentir reafirmado; anseia que os demais preencham estas carências, por isso muitas vezes se sentem frustrados porque poucas pessoas lhes oferecem tudo de que precisam.

Podemos chegar a questionar a nós mesmos.
Este talvez seja o mais complexo e triste.

A pessoa que passou grande parte do seu ciclo vital num lugar disfuncional ou no seio de uma família com estilo de criação negativo pode chegar a ver a si mesmo como alguém que não merece ser amado.

A educação recebida e o estilo de paternidade ou de maternidade em que fomos criados define as raízes da nossa personalidade e da nossa autoestima.

O impacto negativo destas marcas é muito intenso; assim, muitas vezes a pessoa pode ter dúvida sobre a sua própria eficácia, sua valia como pessoa ou até se é digno ou não de cumprir seus sonhos.

Nosso círculo familiar pode nos dar asas ou pode arrancá-las.
Isso é algo triste e devastador, mas verdadeiro.

No entanto, há algo de que nunca podemos nos esquecer:
Ninguém pode escolher quem serão os seus pais, seus familiares, mas sempre chegará um momento em que teremos a capacidade e a obrigação de escolher como vai ser nossa vida.

Escolher ser forte, ser feliz, livre e maduro emocionalmente é algo essencial, daí a necessidade de superar e curar o nosso passado.



MANOELA Z. BRUSCATTO



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

6 Poemas confiados à memória de Nora Mitrani



I

Para ti o tempo já não urge,
Amiga.
Agora és morta.
(Suicida?)
Já Pierrot-vomitando-fogo
(sempre ao serviço dos amantes)
não entra no nosso jogo
como dantes.
Mas esse obscuro servidor,
que promovemos uma vez
(ainda eu não te dedicara
‘aquele’ adeus português…),
corre, lesto, como uma chama,
entre nós dois (o saltarim!)
e desafia-nos prà cama.
Esperas por mim?



II

Se eu pudesse dizer-te: — Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: — Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo amor seria.
Não este descerrar a mão vazia!


III

Sê como és: o sol é bom,
o ar vivaz.
Do azul aos azuis, do verde aos verdes,
a terra é menina e o tempo rapaz.
Também tu és menina
(um bichinho rebelde, de tão natural!)
e correr descalça era mesmo o que querias,
mas seria indecente nesta capital…
E enquanto, doutro verde possuído,
em versos me explico, bem ou mal,
à primavera corres, já descalça,
por uma relva ideal!


IV

Passam os anos a caretear…
Com ou sem sorte,
não será tempo de viver, de amar,
de resistir à morte?
Ouve amor-o-eterno e o que ele diz
a quem se dá.
Não esperes pelo tempo: sê feliz
que a felicidade é já!
E a felicidade é esse rosto eleito
por ti,
é esse palmo de ternura e o jeito
com que sorri.
E a felicidade é a melancolia
que nesse rosto existe,
quando te quer dizer que só por ele
é bom estar triste…
Passem, então, os anos a deitar-nos
línguas de fora…
Se morrermos será de nos amarmos
em cada hora!
Mais um ano de esperança? Não o queiras
se a esperança é adiar,
e vive-o como se fosse a vida inteira
se tiveres de esperar!…


V

Eu estava bom p’ra morrer
nesse dia.
Não tinha fome nem sede,
nem alarme ou agonia.
Eu estava tal como está
esse que perdeu a amiga,
o homem que sofreu já
tanto (nem se imagina!)
que ficou bem atestado
de fadiga
e copiou-se em alegre,
mas de uma torpe alegria,
que não era mesmo alegre,
mas alegre se fingia
só para enganar o morto
que dentro de si trazia.
Este é um modo de dizer
em que ninguém acredita,
mas não sei melhor dizer:
era assim que eu me sentia!
A solidão o que era?
O amor o que seria?
Já ninguém à minha espera,
para nenhures é que eu ia.
Eu estava bom p’ra morrer
— e ainda hoje morria…
Assim me quisesses dar
e tirar — só tu! — a vida.


VI

A que vens, solidão, com teu relógio
de ponteiros de visgo, de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens, ó camarada solidão?
Companheira, amiga, até amante,
até ausente, ó solidão, te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás, ó solidão!
A que vens, enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?
A que vens, solidão? Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto, encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum, ó solidão!



Alexandre O'Neill
Poemas com Endereço
in, Poesias Completas








Dualidade de que é feito o Universo





Todas as pessoas à nossa volta, que de alguma maneira estão dentro da nossa realidade, seja em que área de vida for, têm uma razão para lá estar. Magneticamente atraídos pela nossa própria energia, cada um deles tem diferentes intenções para o fazer. 

Uns estão a devolver-nos algo de nós tal como espelhos fazem com o nosso corpo. 
Estão a activar energias em nós que sem esse impacto externo se manteriam inconscientes cá dentro. Estão a trazer as consequências de acções passadas a que demos vida há muito tempo. Tanto tempo que já caíram no esquecimento e por isso mesmo precisamos desses lembretes.
Quando não temos ainda consciência deste movimentos iremos lidar com eles reactivamente. Ou seja, sem entendimento, iremos naturalmente correr para perto de quem nos faz sentir bem e fugir ou julgar quem nos provoca dor. 
No entanto para a nossa história, ambos são valiosíssimos!
Ambos estão a fazer um papel de amor.
Ambos são necessários no nosso processo de cura e consciência de quem somos.

Há muito que me rendi ao conceito de dualidade de que é feito o Universo e cada manifestação do divino, incluíndo nós próprios. A nossa evolução dá-se sempre que o equilíbrio dentro de nós acontece e isso só é possível quando estamos conscientes dessas duas partes em nós. Infelizmente a maioria no Ocidente vive em doente negação da sua dualidade, numa miopia crónica que apenas lhe permite ver uma distorcida visão perfeccionista de si mesmo.

Ninguém nos educou sobre a luz e a sombra.
Não vimos ninguém à nossa volta a lidar positivamente com elas. 

Não tivemos Mestres ou Professores que nos falassem sobre as suas características, nos mostrassem o que fazer quando elas se desequilibram ou o que teríamos a ganhar quando elas se equilibram. E porque vivemos em profunda ignorância sobre o nosso mundo interior, projetamos a dualidade no mundo exterior.
Alguém irá então fazer o papel da luz e alguém irá fazer o papel da sombra. Na nossa linguagem mais corrente, uns irão ser os bons e os outros irão ser os maus.
Com uns iremos tentar que nos devolvam ilusoriamente o amor que ainda não sabemos sentir em nós. Com outros iremos projectar as sombras que nos recusamos a assumir.

De facto a filosofia espiritual do Ocidente foi incapaz de dar sentido à nossa existência, condicionando por isso a nossa paz interior e qualidade de vida.
Muitos são os que ainda estão mais confortáveis com a ideia de inferno e diabo do que reencarnação, a maioria ainda não conhece as leis universais, o sentido de responsabilidade Karmica é quase inconsciente na maior parte das pessoas, sofremos todos de crises profundas de valores onde já não conseguimos distinguir valor e dinheiro, confundimos amor com apego, conhecimento com sabedoria, responsabilidade com autoridade, enfim, a lista é longa e mostra porque o Ocidente tem as taxas ridículas que tem no que toca ao consumo de antidepressivos e ansiolíticos.

Por sermos incapazes de perceber a dualidade e de ver o quanto o mundo é apenas uma projecção da dualidade interna de cada um, a nossa visão da vida torna-se caótica. 
Os julgamentos são a forma como vamos tabelando o que não entendemos.
O medo toma conta, o sentido de injustiça bloqueia-nos e o nosso discurso fica preso entre a ladaínha da vitimização e da acusação acerca do que ainda não entendemos.
A única boa notícia é que finalmente uma nova energia está a trazer um novo entendimento que aos poucos vai descristalizando as velhas energias e permitindo que aos poucos a luz vá invadindo, tanto as nossas mentes, o nosso coração, o corpo e o espírito.

Tenho tido a bênção de ser testemunha das mais maravilhosas transformações de que o ser humano é capaz quando se permite pôr em causa e libertar do sistemas de crenças, valores e prioridades que lhe gerou os maiores desequilíbrios e colocou em causa o sentido da sua existência.
As mais belas e puras filosofias do Oriente, falam uma linguagem universal e espiritual capaz de dar directrizes ao espírito para que ele consiga atingir o seu equilíbrio. A própria medicina tradicional chinesa trabalha com o mesmo princípio do equilíbrio das energias há mais de 5000 anos e já deu provas de que tem o poder de curar profundos desequilíbrios internos de que todos sofremos.

A era da fé cega e do Deus do medo chegou ao fim. 

A Nova Era pede consciência, entendimento, responsabilidade, liberdade para reclamarmos o nosso poder pessoal e equilíbrio interno.
O mundo lá fora não é um fim em si onde iremos encontrar a abundância e a felicidade, mas apenas um meio para que ela se possa experienciar dentro de nós.
Esse é o caminho da luz interior e é esse que será capaz de inspirar e iluminar quem nos rodeia e o mundo em que vivemos.


Vera Luz





terça-feira, 21 de novembro de 2017

Versos do Testamento





A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na relva molhada
e grandes pedras em meio à sujeira húmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
excepto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sémen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastos, ou melhor, deixa um único rasto
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o acto está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de facto o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.



Pier Paolo Pasolini




Our Hair is an extension to the nervous system





Our Hair 
is an extension 
to the nervous system—Reason why 
Native American Indians 
keep their hair long.



Have you ever wondered why Native Americans keep their hair long?
It’s kinda simple: “Hair is an extension of the nervous system.”

“Hair is an extension of the human nervous system; it can be accurately described as exteriorized nerves, a type of highly developed ‘feelers’ or ‘antennae’ that are able to transmit enormous amounts of important information to the brain stem, the limbic system, and the neocortex.”

The truth is that countless ancient cultures across the planet have the belief that long hair has a unique and special significance. And even though some of these cultures were separated by thousands of miles, many similarities are present among them. Hair was considered an extension of the soul and evidence of that are traditions that many native American Indians have guarded until this day.

For example, the Navajo only cut their children’s hair on the first birthday and avoided cutting again afterward.

But the length of the hair in many ancient cultures was different than what we consider it today.

For many of us, hair is just another stylistic concern; it makes us look better, sometimes younger sometimes older, depending on the length, color, and shape. Hover for most Native Americans hair was by no means a stylistic concern, it was something that went beyond what many of us are capable of understanding even today.

In some cultures, hair symbolizes not only an extension of the soul, but it symbolizes physical strength and virility; in other words, the virtues and properties of a person are said to be concentrated in his hair and nails.

But some would say that our hair tells a lot about us, on a much deeper level. Some would agree that by cutting your hair, you lose a small part of that unique relationship with oneself.

Also, there are many ways you can actually wear your hair according to Native tradition.

And there is a way to wear the hair for ceremonies and dances. For countless Native American cultures, braided hair meant unity with the infinite, and allowing the hair to flow freely signified the free flow of life.

But if we look at American history, Native Americans and especially the war that took place in Vietnam we’ll encounter fascinating details.

Unlike what many may believe, hair may serve a much bigger purpose than as just an accessory.

And while ”hair” is a matter of personal preference, we learn a lot from Native Americans when it comes to the way they wear their hair.

During the War in Vietnam, the American military was in search for talented, young men—trackers—that could navigate their way in stealth across the enemy terrain. Special Forces in the war department sent undercover experts to comb American Indian Reservations where they found countless brave young men who were more than adequate for the task.

Upon recruiting them, they carefully cataloged their abilities and talent’s and rapidly discovered that they were perfectly suited for the task.

Soon after the young men were recruited/enlisted, and after going through the countless rituals of joining the army, the skills and talents which were ever-present seemed to vanish. Confused the army started searching for answers and turned to some of the Native American elders who without hesitating answered how when their young men received the mandatory haircut after joining the military, they could no longer “sense” the way they did before. Their almost supernatural abilities—their intuition—disappeared.

After more recruits were gathered from Native American tribes, they decided to perform tests and see what was going on, and whether “the length of hair” had anything to do with their abilities.

After recruits were gathered, they let them keep their long hair and submitted them to tests in countless areas. After several tests where “trackers” with long hair competed against others with short hair, experts found how trackers with longer hair had access to something like a ‘sixth sense’ with an intuition much more reliable when compared to men with short hair.

As noted by C. Young on Sott,

“Hair is an extension of the human nervous system, it can be accurately described as exteriorized nerves, a type of highly evolved ‘feelers’ or ‘antennae’ that are able to transmit vast amounts of important information to the brain stem, the limbic system, and the neocortex.”

It is perhaps best explained by Chief Golden Light Eagle in this video:






in, Ancient Code





The path isn't a straight line; its a spiral





"The path isn't a straight line; its a spiral. You continually come back to things you thought you understood and see deeper truths." 
– Barry H. Gillespie



segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A um Papa






Poucos dias antes que você morresse, a morte
pusera os olhos num outro de sua idade:
aos vinte, você era estudante, ele, trabalhador braçal,
você, nobre e rico, ele, um rapazote miserável e plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre suas cabeças
a velha Roma que tanto se renovava.
Vi seus despojos, pobre Zucchetto.
Zanzava à noite embriagado, em torno dos Mercados,
quando um eléctrico que vinha de San Paolo o atropelou
e arrastou um bom tanto pelos trilhos entre os plátanos:
por algumas horas ficou ali, debaixo das rodas:
pouca gente se aglomerou ao redor para vê-lo,
em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.
Um dos homens que existem para que você exista,
um velho policia desbocado e troglodita,
berrava a quem se encostava demais: “Fora, cambada!”.
Depois veio o automóvel de um hospital para levá-lo:
o povo foi embora, aqui e ali ficaram uns farrapos,
e a dona de um bar noturno pouco adiante,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto fora arrastado por um elétrico, se acabara.
Poucos dias depois você acabava: Zucchetto fazia parte
de seu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família e sem tecto,
que vagava pela noite, vivendo quem sabe como.
Você não sabia nada sobre ele: e não sabia nada
sobre outros milhares de cristos como ele.
Talvez eu seja cruel ao me perguntar por que razão
gente como Zucchetto fosse indigna de seu amor.
Há lugares infames onde mães e crianças
vivem numa poeira antiga, numa lama de outras eras.
Não muito longe de onde você viveu,
com vista para a bela cúpula de São Pedro,
há um desses lugares, o Gelsomino…
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e em baixo,
entre um canal e uma fila de prédios novos,
um amontoado de construções miseráveis, não casas, mas pocilgas.
Bastava apenas um gesto seu, uma palavra,
para que esses seus filhos tivessem uma casa:
você não fez um gesto, não disse uma palavra.
Não se pedia a você que perdoasse Marx! Uma onda
imensa que se refrange há milénios de vida
o separava dele, da religião dele:
mas em sua religião não se fala de piedade?
Milhares de homens sob o seu pontificado,
diante de seus olhos, viveram em currais e pocilgas.
Você sabia de tudo: pecar não significa fazer o mal;
não fazer o bem, isto é que é pecar.
Quanto bem você podia ter feito! E não fez:
nunca houve um pecador maior que você.



Pier Paolo Pasolini
in, "La Religione del mio tempo"