terça-feira, 17 de outubro de 2017

Beijos





Monólogo


«Beijar!» linda palavra!… Um verbo regular
Que é muito irregular
Nos tempos e nos modos…

Conheço tanto beijo e tão dif’rentes todos!…

Um beijo pode ser amor ou amizade
Ou mera cortesia,
E muita vez até, dizê-lo é crueldade
É só hipocrisia.

O doce beijo de mãe
É o mais nobre dos beijos,
Não é beijo de desejos,
Valor maior ele tem:
É o beijo cuja fragrância
Nos faz secar na infância
Muita lágrima… feliz;
Na vida esse beijo puro
É o refúgio seguro
Onde é feliz o infeliz.

Entre as damas o beijo é praxe estab’lecida,
Cumprimento banal – ridículos da vida! 
–:(Imitando o encontro de 2 senhoras na rua)
– Como passou, está bem? (Um beijo.) O seu marido?
(Mais beijos.) – De saúde. E o seu, Dona Mafalda?
– Agora menos mal. Faz um calor que escalda,
Não acha? – Ai Jesus! que tempo aborrecido!…

Beijos dados assim, já um poeta o disse,
Beijos perdidos são.
(Perder beijos! que tolice!
Porque é que a mim os não dão?)

O osculum pacis dos cardeais
É outro beijo de civ’lidade;
Beijos paternos ou fraternais
São castos beijos, só amizade.

As flores também se beijam
Em beijos incandescidos,
Muito embora se não vejam
Os ternos beijos das flores.

Há outros beijos perdidos:
Aqui mesmo,
Há aqueles que os atores
Dão a esmo,
Dão a esmo e a granel…
Porque lhes marca o papel.

– Mas o beijo d’amor?
Sossegue o espectador,
Não fica no tinteiro;
Guardei-o para o fim por ser o «verdadeiro».

Com ele agora arremeto
E como é o principal,
Vai apanhar um soneto
Magistral:

Um beijo d’amor é delicioso instante
Que vale muito mais do que um milhão de vidas,
É bálsamo que sara as mais cruéis feridas,
É turbilhão de fogo, é espasmo delirante!

Não é um beijo puro. É beijo estonteante,
Pecado que abre o céu às almas doloridas.
Ah! Como é bom pecar co’as bocas confundidas
Num desejo brutal da carne palpitante!

Os lábios sensuais duma mulher amada
Dão vida e dão calor. É vida desgraçada
A do feliz que nunca um beijo neles deu;

É vida venturosa a vida de tortura
Daquele que co’a boca unida à boca impura
Da sua amante qu’rida, amou, penou, morreu.

(Pausa – Mudando de tom)

Desejava terminar
A beijar a minha amada,
Mas como não tenho amada,

(A uma espectadora)

Vossência é que vai pagar…
Não se zangue. A sua face
Consinta que eu vá beijar…
……………………. (atira-lhe um beijo)
Um beijo pede-se e dá-se,
Não vale a pena corar…



Mário de Sá-Carneiro
in, Obra Poética de Mário de Sá-Carneiro







A Meditação do Osho





Não há necessidade de meditar todo o tempo.
Umas poucas vezes no dia e apenas por uns poucos minutos é o bastante.

Existem algumas poucas coisas que se fizer demais podem ser prejudiciais.
Por exemplo, os últimos estudos dizem que se você fizer algum exercício corporal por vinte minutos e depois fizer o mesmo exercício por quarenta minutos, o benefício não será dobrado. E se você fizer por sessenta minutos o benefício se tornará prejudicial.
É exatamente como quando você come algo que é benéfico.
Se você comer muito não será benéfico, isso se tornará prejudicial.
Assim, a matemática comum não funciona.

Sempre que você encontrar tempo, apenas por uns poucos minutos, relaxe o sistema de respiração, nada mais – não há necessidade de relaxar o corpo inteiro. Sentado num autocarro, ou num avião, ou num carro, ninguém perceberá que você está fazendo alguma coisa. Apenas relaxe o sistema de respiração. Deixe que ele seja como quando ele está funcionando naturalmente. Então feche os olhos e observe a respiração entrando, saindo, entrando, saindo...
Não concentre.
Se você concentrar, irá criar problemas, porque então tudo se tornará uma perturbação.
Se você tentar se concentrar sentado num carro, então o barulho do carro se tornará uma perturbação, a pessoa sentada ao seu lado se tornará uma perturbação.

Meditação não é concentração. Ela é simples consciência. 
Você simplesmente relaxa e observa a respiração. 
Em tal observação, nada é excluído. 
O carro está fazendo barulho – isso está perfeitamente Ok, aceite isso.
O trânsito está movimentando – isso está Ok, faz parte da vida.
A pessoa sentada ao seu lado está roncando, aceite isso. Nada é rejeitado.
Você não tem que estreitar sua consciência.

Concentração é um estreitamento de sua consciência de modo que você se torne focado num ponto, mas tudo mais se torna uma concorrência.
Você está brigando com tudo mais porque você tem medo de que aquele ponto seja perdido.
Você pode se distrair e isso se torna uma perturbação.
Por isso você precisa de isolamento, dos Himalaias.
Você precisa ir a Índia e para um quarto onde você possa sentar-se silenciosamente, sem ninguém perturbando você de modo algum.
Não, isso não é certo – isso não pode se tornar um método de vida.
Isso é isolar a si mesmo.

Isso tem alguns bons resultados – você se sente mais tranquilo, mais calmo – mas esses resultados são temporários. É por isso que você sente repetidas vezes que aquela sintonia foi perdida. Uma vez que você não tenha as condições nas quais ela pode acontecer, ela se perde.

A meditação na qual você precisa de certos pré-requisitos, na qual certas condições precisam ser atendidas, não é meditação de modo algum – porque você não será capaz de fazê-la quando estiver morrendo. A morte será uma dispersão. 
Se a vida dispersa, pense sobre a morte.
Você não será capaz de morrer meditativamente, e então toda essa coisa é inútil, é perdida. 
Você novamente morrerá tenso, ansioso, na miséria, no sofrimento e criará imediatamente o seu próximo nascimento no mesmo padrão.
Deixe que a morte seja o critério.
Qualquer coisa que possa ser feita mesmo enquanto você estiver morrendo é real – e isso pode ser feito em qualquer lugar; em qualquer lugar e sem condições como requisito.
Se algumas vezes as boas condições estiverem ali, tudo bem, você desfruta delas. Se não, isso não faz qualquer diferença. Mesmo na praça do mercado você pode fazê-la.

Não deve haver qualquer tentativa de se controlar a respiração, porque todo controle é da mente, assim a meditação nunca pode ser uma coisa controlada.
A mente não consegue meditar.
Meditação é alguma coisa além da mente, ou abaixo da mente, mas nunca na mente.
Assim, se a mente permanecer observando e controlando, isso não é meditação; isso é concentração.
Concentração é um esforço da mente, ela traz as qualidades da mente ao seu ponto máximo. Um cientista se concentra, um soldado se concentra, um caçador, um pesquisador, um matemático, todos se concentram. Essas são atividades da mente.

A qualquer tempo medite.
Não há necessidade de ter um tempo pré-determinado.
Use qualquer tempo que tiver disponível. 
No banheiro, quando você tiver dez minutos, simplesmente sente-se debaixo do chuveiro e medite. De manhã, depois do almoço, por quatro, cinco vezes, em pequenos intervalos – apenas de cinco minutos – medite, e você verá que isso se tornará uma constante nutrição.
Não há necessidade de fazê-la por vinte e quatro horas.
Apenas uma xícara de meditação é o bastante. Não precisa beber todo o rio. Apenas uma xícara.
E faça isso o mais fácil possível. O fácil é o certo. Faça o mais natural possível. 
Simplesmente faça quando você encontrar tempo.

E não faça disso um hábito, porque todos os hábitos são da mente e, na verdade, a pessoa real não tem qualquer hábito.



OSHO 
in, Nothing to Lose But Your Head 
Cap. 5





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Abandono





Na cama, onde o teu corpo, de costas, se abandona
aos meus olhos, e os cabelos se espalham pela almofada
és a mais bela das mulheres nuas. Os pés, sobre
os lençóis que o amor amarrotou, cruzam-se,
num breve descanso; e o rosto, de olhos 
fechados, esconde o desejo que a tua brancura
me oferece, contra a parede que inscreve
o único limite do nosso amor. O braço direito
caído para o chão, agarra um vazio que encho
de palavras; e o braço esquerdo, sob os seios,
indica-me o caminho em que cada repetição
é uma descoberta. Se te voltares, abrindo os braços,
e mostrando o peito, saberei o rumo seguir,
nesta viagem em que és a proa e o vento; mas
se ficares assim, secreto retrato no atelier
do coração, apenas te peço que entreabras
os lábios, para que um murmúrio nasça
de dentro da tela. Então, cobrir-te-ei as pernas
com o lençol, espalhar-te-ei pela almofada
os cabelos, escondendo a nuca e o ombro; e
deixarei que este poema se derrame sobre ti,
ateando este fogo com que a tua nudez
me incendeia.


Nuno Júdice





Visiting Sacred Sites





Visiting a sacred site can be a useful tool 
to open something within you 
that has remained inaccessible.




From time immemorial, the hands of men and women have built sites guided by both the earth's life force and benevolent beings of light. It is because of this guidance that the sites we deem sacred have long served as repositories of wisdom, energy, and illumination that can be accessed by all. The needs that inspire seekers to converge upon sites known to be sacred vary by individual. Some crave spiritual fulfillment above all else, while others hope to draw upon a site's energy for the purpose of enlightenment, healing, or deep meditation, awareness and knowledge of information long gone. 

Sacred sites can appear insignificant to those who close themselves off from the notion of a living earth. But sites can provide us with a link to a unified consciousness that involves the living and the dead, infinite cultures, the physical plane, and the spiritual world. 
When we look beyond well-known sites like Stonehenge, we discover energetically active sites such as the Iron Age fogou caves of Cornwall, England, or the pyramids of Meroe in the Sudan.
Similarly, it is easy to imagine that hallowed places exist only in remote or exotic locales.
Yet many of the most richly vital sites are easily accessible, and visiting these lesser-known sites can be a profoundly moving experience. One such site, Serpent Mound in Ohio, was thought to be created by the ancient Adena peoples nearly 1,000 years ago to align with the summer and winter solstices. Its precise purpose remains unclear, but many who visit the site conclude that it was meant to be a conduit through which cosmic energy could flow into the earth. 

The sacred sites that call to you from afar-capturing your imagination and resonating deep within your soul-will nearly always be those that can help you forge a deeper connection with the divine energy that sustains all life.

During your pilgrimage, reaffirm your intention to accept whatever gifts are conveyed to you through the sites you visit. Your receptiveness will help you establish lasting relationships with these sites so that you can draw upon their peace and their power from wherever you are.




MADISYN TAYLOR





quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quando me invade a preguiça, é fácil





Uma cor que se desfaz ao pé da nuvem com terebentina
até ficar de um vermelho ineficaz, numa varanda onde eu, aos 42,
estou imóvel à medida que as luzes se acendem saudando
e temendo a noite, gente que passa, um zumbido leve de automóveis, 
o céu imediato como uma girândola de lâmpadas e um escuro-chuva.
O que te diz o horizonte?, é significativo ou portátil?
Uma paisagem de tinta mal emendada com um trapo.

Aos 42, em vez de solidão augúrios, e a sabedoria trocada
por pressentimentos. Ilusões apenas o "eu" onde tudo acontece,
ou a figura subjectiva que garante o crepúsculo.
A tarde é que existe e decai, sem mais, em rumores e semáforos,
o eu é coisa indistinta, apagável como uma mancha.
Escrevo, mas tudo o que escreva está submerso pelo queixume
dos pássaros que enchem as árvores e se ouvem no futuro.


Pedro Mexia





CRESCE, AMADURECE





Somos um pacote de energia, a ciência finalmente já o comprovou. No entanto, há séculos ou mesmo milénios que as antigas sabedorias esotéricas o afirmam e procuraram entender essas mesmas energias.

Os Mestres Taoístas com o seu Yin / Yang. A Numerologia com os seus 9 Números. A Astrologia com os 12 Signos. A literatura indiana védica com os 7 Chakras. Acredito mesmo que em todas as culturas iremos encontrar outras interessantes e diferentes maneiras de explicar o mesmo fenómeno.

Em todas estas ancestrais ciências ou sistemas filosóficos encontramos algo comum a todas: a dualidade. Polos negativos e positivos. Energias femininas e masculinas. Aspectos luz e aspectos sombra. A Mãe Terra, o Pai Céu. E tudo se comprova quando olhamos para a Natureza, que na sua maravilhosa diversidade, nos mostra como a dualidade pode ser extraordinária e maravilhosa.

Depois de séculos de amnésia em que acreditámos que Deus e a vida seriam apenas o lado positivo / amor / feliz / poderoso / ativo / luz, estamos finalmente a começar a aprender a aceitar e a integrar o lado negativo / medo / triste / desempoderado / sensível / sombra com parte complementar do Todo e não algo a rejeitar.

Aos poucos vamos percebendo que o desafio da vida não nos pede conquistas exteriores ou que impressionemos quem nos rodeia, ou mesmo Deus, com todos os aspectos positivos. O grande e mais nobre desafio é interior, ou seja, o reconhecimento de quem já somos; esta bela mistura de duas energias complementares que não são mais do que a individualização de Deus.

A partir desta visão maravilhosa, vamos então encontrar a dualidade em tudo e de todas as maneiras. Não só dentro de nós nas nossas energias, mas também nas nossas necessidades exteriores e interiores obviamente.

Aliás, tenho mesmo observado que um dos maiores desafios diários é precisamente gerir as necessidades básicas do corpo, como alimento, segurança, proteção, conforto, descanso e todos os imensos movimentos diários que precisamos fazer para as satisfazer como desenvolver e manter fontes de rendimento saudáveis que permitam então construir fundações saudáveis.
Mas também as necessidades do espírito: amor próprio, paz interior, sabedoria, consciência do nosso propósito espiritual, responsabilidade pela nossa energia, liberdade de sermos quem somos, espaço e tempo para sentir, meditar, aprender, amadurecer e servir.

Quanto mais consciência temos deste imenso e permanente trabalho pessoal duplo, mais nos responsabilizamos por ele. Até que nasça esta consciência, vivemos em estado de carência, completamente inconscientes e incapazes de nos auto gerirmos e equilibrarmos, vivendo em estado de exigência e cobrança permanente a quem nos rodeia, tal como faz um bebé no berço.

No entanto, o processo de maturidade começa no nascimento e irá sempre acompanhar-nos pela vida fora convidando-nos a crescer e a amadurecer de maneira a que um dia consigamos “desmamar” as nossas dependências e aprender que somos capazes de crescer e caminhar sozinhos.

Porque não nos foi ensinado este processo, porque o nosso sistema filosófico não nos incutiu responsabilidade por quem somos, ou sequer pelo nosso trabalho interno, a compensação passou a ser feita no exterior, no mundo lá fora, nas relações com outros e no poder material. Ou seja, as nossas necessidades básicas tanto interiores como exteriores mantêm-se as mesmas, mas em vez do trabalho estar a acontecer dentro, passou a ser feito fora. Por esta razão vemos adultos imaturos, dependentes, carentes, exigentes, cobradores que apenas o são porque nunca fizeram o seu processo de maturidade emocional interior.

Para conseguirmos manter uma energia equilibrada e relações de qualidade, precisamos então amadurecer. Voltar ao passado dentro de nós e resgatar a nossa criança a quem não foi ensinado o processo de responsabilidade e maturidade emocional.

Para conquistarmos essa autonomia e liberdade, precisamos tomar consciência de onde, com quem e de que maneiras sobrevivemos no estado de imaturidade e dependência do “bebé”. Onde ainda fazemos “birras”, a quem cobramos o que precisamos. De que maneiras manipulamos para termos o que queremos.

Não será difícil de identificar onde precisamos amadurecer, pois serão obviamente as áreas de vida e relações onde a maturidade nunca chegou e por isso o conflito, a dor e a perda surgem como consequência e proposta de amadurecimento.

Serão essas as áreas de vida onde nos será pedida maturidade e uma nova atitude de responsabilização e libertação do outro. Quanto mais percebemos o fenómeno, mais fácil se torna de identifica-lo por isso deixo-te com algumas questões de maneira a encontrares na tua vida, onde a imaturidade e irresponsabilidade ainda reinam e onde obviamente terás que amadurecer e responsabilizar-te por criar uma nova realidade.

1- Ainda acreditas que o teu relacionamento é a fonte dos teus problemas?
Então o que estás a fazer para decidir como pretendes resolver essa área de vida?
2- Ainda acreditas que o teu emprego te desgasta e não tem nada a ver contigo?
Então que investimentos estás a fazer para criar uma nova realidade que te faça mais sentido?
3- Ainda acreditas que as tuas maiores dores vêm do amor que os teus pais não te deram?
Então o que tens feito para perceber porque os escolheste?
4- Ainda acreditas que a culpa dos teus problemas é a falta de dinheiro?
Então o que estás a fazer para te valorizares mais e investires mais em ti de maneira a atraíres mais abundância?
5- Ainda acreditas que se tivesses escolhido diferente no passado serias feliz hoje?
Então o que estás a fazer para fazeres as pazes com a vida que escolheste?
6- Ainda acreditas que tudo te corre mal e que não tens sorte?
Então o que estás a fazer para descobrir que tudo na vida está exatamente como deve estar para a nossa evolução e que te cabe a ti superar os desafios?
7- Ainda acreditas que se os teus filhos te respeitassem mais, fossem mais maduros e fizessem melhores escolhas que tudo seria mais fácil?
Então o que estás a fazer para lhes mostrares limites e os inspirares a seguir o teu exemplo?
8- Ainda acreditas que és uma vitima das circunstâncias?
Então o que estás a fazer para perceberes melhor a lei do karma?

Tudo começa e acaba connosco. 
As interações com o mundo e com os outros servem para nos descobrirmos e nos tornarmos capazes de evoluir e amadurecer emocional e espiritualmente.
Quando voltamos ao ponto interior de responsabilidade pessoal, podemos então fazer atrair quem já esteja nesse processo também e será dessa nova postura que nascerá uma nova forma de relacionar onde a responsabilidade, a maturidade e a liberdade serão a base do verdadeiro amor tanto individual como a dois.


Vera Luz




Graham Hancock on the Great Pyramid...

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Rosto Afogado





Para sempre um luar de naufrágio 
anunciará a aurora fria. 
Para sempre o teu rosto afogado, 
entre retratos e vendedores ambulantes, 
entre cigarros e gente sem destino, 
flutuará rodeado de escamas cintilantes. 

Se me pudesse matar, 
seria pela curva doce dos teus olhos, 
pela tua fronte de bosque adormecido, 
pela tua voz onde sempre amanhecia, 
pelos teus cabelos onde o rumor da sombra 
era um rumor de festa, 
pela tua boca onde os peixes se esqueciam 
de continuar a viagem nupcial. 
Mas a minha morte é este vaguear contigo
na parte mais débil do meu corpo, 
com uma espinha de silêncio 
atravessada na garganta. 

Não sei se te procuro ou se me esqueço 
de ti quando acaso me debruço 
nuns olhos subitamente acesos 
ao dobrar duma esquina, 
na boca dos anjos embriagados
de tanta solidão bebida pelos bares, 
nas mãos levemente adolescentes 
pousadas na indolência dos joelhos. 
Quem me dirá que não é verdade 
o teu rosto afogado, o teu rosto perdido, 
de sombra em sombra, nas ruas da cidade? 

Ninguém te conheceu, 
ninguém viu romper a luz na tua cama, 
ninguém sabe, ninguém, 
que o teu corpo, continente selvagem, 
se desvelava por uma pedra branca
atirada contra o nevoeiro. 

Por isso escrevo esta elegia 
como quem oferece a luz dos olhos; 
por isso canto o teu rosto afogado 
como quem canta um funeral de espigas. 


Eugénio de Andrade





The Paradox of Spirit






Each of us has a spiritual self that animates our bodies and infuses our thoughts and feelings. 
Our language is limited to the world we know for descriptions of something that perhaps cannot be fully comprehended by the human mind.
Therefore, only metaphors approach the expressions that give us a true sense of our spiritual nature.

The paradox lies in opposing concepts, all of which are true at the same time.
And in harmonizing the opposites, we begin to know the wonders of the spirit. 

The self is not small or big but is both at the same time.
Our spirit is like a drop in the ocean of spiritual energy.
Although our spirit seems like a small, disconnected part of a larger whole, it is still made of the same things and can become part of the vast ocean once again.
Our individual spirit seems to inhabit our bodies like a passenger in a vehicle but at the same time is not bound by our bodies.

Spirits can reach across the miles to touch the heart of a loved one or expand to become one with the universe. We may feel small and perhaps insignificantly young when we look up at the stars, but we are made of the same basic elements. Perhaps looking at the stars is merely a reflection of what is going on within each atom and cell of our being.

We are a universe within a universe.
Our spirits are ever renewing, yet ageless and eternal.
So the self is not new or old but both at once. 

So our spiritual self is not small or big, new or old.
We may experience life as good and bad, right and wrong, happy and sad, but this is the experience of the material world of dualities, not the truth of our spiritual nature.
By going within to touch the eternal and changeless energy at our center, we can go beyond the contrasting metaphors to the experience of oneness.
And in that connection we can know big and small, new and old, movement and stillness.
By accepting the paradox of spirit, we open ourselves to the fullness of our own being.




MADISYN TAYLOR




terça-feira, 10 de outubro de 2017

Desencontro





Só quem procura sabe como há dias 
de imensa paz deserta; pelas ruas 
a luz perpassa dividida em duas: 
a luz que pousa nas paredes frias, 
outra que oscila desenhando estrias 
nos corpos ascendentes como luas 
suspensas, vagas, deslizantes, nuas, 
alheias, recortadas e sombrias. 

E nada coexiste. Nenhum gesto 
a um gesto corresponde; olhar nenhum 
perfura a placidez, como de incesto, 

de procurar em vão; em vão desponta 
a solidão sem fim, sem nome algum - 
- que mesmo o que se encontra não se encontra. 




Jorge de Sena
in, "Post-Scriptum"